África do Sul relembra o Massacre de Sharpeville
From BBC
“We were shot at in cold blood – there was no warning,” reconta Ike Makiti, um sobrevivente do Massacre de Sharpeville em frente aos túmulos do cemitério municipal.
Makiti tinha apenas 17 anos no momento do tiroteio. Era estudante e um membro ativo do Pan-Africanist Congress – PAC. Ele estava voltando para a escola logo após almoço na segunda-feira, 21 de março de 1960, quando ouviu o som de tiros.
“Nós pensamos inicialmente que eram somente fogos de artifício, mas se tornou claro quando vimos sangue e que eles estavam atirando nas pessoas. A maioria foi baleada nas costas por estarem fugindo. Estava claro que algo sério estava acontecendo”.
Quinze minutos de tiroteios transformaram o massacre num dos mais emblemáticos momentos da luta de libertação. O massacre marcou o início da resistência armada e à proibição tanto do PAC como do African National Congress – ANC.
Sessenta e nove homens, mulheres e crianças foram mortos nesse dia. Mortos quando os policiais abriram fogo sobre a multidão.
Sobreviventes e Desempregados
Milhares de manifestantes se reuniram em Sharpeville, sul de Johanesburgo, em protesto contra a utilização das cadernetas infames, ou “dompas”, que todos os negros sul-africanos eram obrigados possuir e carregar. Ela regia o movimento de uma pessoa, era um instrumento de perseguição e era um dos símbolos mais odiados do estado de apartheid.
Desapontamento
Ike Makiti, que posteriormente cumpriu cinco anos de prisão em Robben Island por ser um membro de uma organização banida, afirma estar desapontado em virtude das promessas do novo governo democrático não estão sendo cumpridas.
“Most of the people who survived that massacre are not working“, ele diz. “I’m not saying they should be fed sitting down, but they should be provided with work“.
O pequeno shopping de Sharpeville está degradado e muitos dos edifícios foram cobertos. O que resta é uma pequena loja de moda, um cabeleireiro, um açougue e um modesto barzinho. Duas escolas foram fechadas recentemente e não existem instalações desportivas para a juventude.
Tsoana Nhlapo, que representa uma organização chamada Sharpeville First, fala para a geração mais jovem – descendentes daqueles que testemunharam o Massacre de Sharpeville. Ela está trabalhando para o município ser reconhecido como patrimônio nacional; para um pedido de desculpas do Estado para o que aconteceu aqui e, como em muitas outras áreas pobres na África do Sul, para a entrega de uma melhor infra-estrutura e serviços.
“Quando o apartheid ainda era abundante estávamos reclamando que uma casa de quatro cômodos eram como canis, não eram de boa qualidade, mas o que acontece agora com eles no poder é que eles estão construindo casas ainda mais pequenas”.
“Será que perdemos o ponto em algum lugar? Será que não lembram pelo que nós lutamos?”
O partido governista da África do Sul, a ANC, é acusado de não entregar os itens básicos, como moradia e emprego para as pessoas que lutaram pela libertação.
Essa situação atrapalhou as celebrações previstas para o 50º aniversário em Sharpeville, com alguns eventos sendo cancelados por medo de que eles poderiam provocar tumultos. Esses acontecimentos refletem o humor em uma sociedade apelidada como mais desiguais do mundo e serve como um reflexo de um novo tipo de luta de que os políticos sul-africanos estão tendo de enfrentar.


